Monday, March 20, 2006

A POSSE E A POSE

Por: Bragança
dos Santos


Fomos acompanhando, na medida do possível, a posse do actual Presidente da República Portuguesa, Professor Aníbal Cavaco Silva, no passado dia 9 de Março. Foi só na medida do possível, já que se tratava de um vulgar dia de trabalho, logo, só a espaços é que conseguimos registar, na nossa memória, alguns dos passos de tão importante cerimónia que, com as resenhas dos noticiários da noite desse dia, julgamos, terão sido suficientes, para conseguirmos elaborar um juízo minimamente estruturado sobre o que de mais relevante, quer em termos positivos, quer sob o ponto de vista negativo, se passou.

Se por um lado tivemos a posse do Senhor Presidente da República de Portugal, que o será, no mínimo, para os próximos cinco anos, por outro lado assistimos à pose de uma ou outra figura do nosso elenco político, cujo(s) protagonismo(s) se não tivesse(m) sido ridículo(s), teria(m) sido algo extremamente difíceis de explicar, já que se trata de pessoas com sérias obrigações de postura democrática, na medida em que delas se exige o tal exemplo que de cima sempre se espera.

É claro que estamos a falar do Dr. Mário Soares, principalmente. Constata-se que este ex-candidato à presidência da República, para além de ter sido derrotado nas eleições do passado dia 22 de Janeiro de 2006, designadamente pelo seu camarada de partido, Manuel Alegre, parece não ter aprendido a lição, continuando a denotar uma total falta de pachorra para quem demonstrou, com tanto afinco, pretender continuar na política. Ou foi só para “chatear” Cavaco que ele aceitou responder ao repto de Sócrates?! Isto, porque já não consegue respeitar os seus adversários, mesmo quando os papéis por estes protagonizados estão muito para lá desse trivial enquadramento, situando-se de forma concretamente objectiva, considerando agora o cenário institucional da posse de Cavaco, num plano absolutamente diferenciado, particular e episódico até, se repararmos que posse há só uma, na pessoa de Cavaco, durante os próximos cinco anos, não esquecendo também que o supremo Magistrado da Nação não deve tão pouco ser sujeito a tricas partidárias. Foi também deselegante e acabou por dar mais nas vistas, ao invés do que teria acontecido, caso se tivesse verificado o simples e formal aperto de mãos.

Já agora, que falamos da posse de Cavaco, convém acrescentar que o actual Presidente da República, que evidentemente não é um Deus, foi igual a si próprio, ou seja, esteve no seu melhor, como sempre, aliás, agora que a comunicação social se deixou de subjectividades, como acontecia quando era primeiro ministro. De notar também a alusão que Cavaco Silva faz à importância relativa da estabilidade política, ou seja, quando refere que a mesma “não é um fim em si mesma”, quer significar, tanto quanto nos foi dado perceber, que irá estar particularmente atento ao desempenho do governo e, portanto, não permitirá veleidades, de resto, dizemos nós, como aquelas que Sampaio permitiu. É curiosa, também, a reacção de Sócrates, quando instado pelos media a pronunciar-se sobre o discurso do Presidente. Tudo em uníssono, quis Sócrates fazer-nos acreditar ser essa a sua interpretação. Sabemos que ele sabe que assim não é. Não deixa, no entanto, de ser extraordinária a sua capacidade de tudo moldar à sua fantástica imaginação, como quando afirmou ser o modelo finlandês o que mais convém a Portugal, como se tal fosse possível. Senhor Primeiro Ministro, quando é que acha que conseguirá, tal e qual nos foi dado observar naquela sala do 1.º Ciclo do Ensino Básico Finlandês, onde V.ª Ex.a esteve presente, colocar à disposição de cada aluno, em salas confortavelmente agradáveis, com mesas e cadeiras ergonómicas, em número suficiente, de tampos coloridos, com vídeo/pantalha gigante na parede, retroprojectores, televisores, máquinas de filmar, aquecimento, um computador portátil pessoal e armários e, etc., etc., etc., sem falar, claro, nos gabinetes de trabalho para cada docente? É este o tal modelo que, decerto, lá se renova em cada escola colocada à disposição das populações, ao contrário do que aqui se passa. Aqui, são encerradas aos milhares e retirados, também aos milhares os apoios especiais, na razão inversamente proporcional das necessidades educativas especiais, em número sempre crescente, de acordo com a sistemática degradação das assustadoramente crescentes franjas do tecido sócio-económico e cultural nacional.

Trata-se, na realidade, de uma questão de pose, genialmente rotulada, quando denomina de novas fronteiras o recente balanço de um ano de governação. Fronteiras significam limites, entraves, obstáculos, que é o que na prática, cada vez mais se nos depara no dia a dia das nossas vidas. Até quando?

14 de Março de 2006
TÃO BURRINHOS QUE NÓS SOMOS!

Por: Bragança
dos Santos


Enquanto membro de uma classe que foi, em termos teórico-científicos e práticos, preparada, não só durante o período de formação inicial, nos bancos da escola e nas actividades de campo, de contacto e de prática pedagógica assistida, mas também ao longo desta mais recente eternidade de três décadas de leccionação, numa tão alargada diversidade de contextos lectivos, na chamada formação continuada, compulsiva e/ou voluntária, sentimo-nos, naturalmente, ofendidos face às investidas obstinadas da tutela, naquela linha de quem tudo sabe e tudo pode, mesmo para lá da legislação que, paulatinamente, foi sendo elaborada no sentido de balizar estatutariamente a carreira dos educadores de infância e dos professores dos 1.º, 2.º, 3.º Ciclos do Ensino Básico e do Ensino Secundário. Que garantias pode então significar, para determinada classe, um estatuto enquadrado juridicamente por um Decreto-Lei, se, às duas por três, um qualquer governo – ainda que de maioria absoluta -- com ideias preconcebidas e manifestamente precipitadas, porque inconsequentes e já comprovadamente contraproducentes, resolve pescar, aqui e ali, no seio desse mesmo documento legal, um conjunto de artigos e alíneas e, sem água vai, resolve, pura e simplesmente, revogá-los, sem ter sequer discutido, em sede de consertação social, com os respectivos parceiros, a globalidade do Estatuto, tendo em conta, por exemplo, uma certa necessidade de actualização das matérias aí constantes, devido aos anos que aquele documento, no momento, conta?

Serão estes os sinais de um tempo em que ninguém respeita ninguém; ninguém demonstra um mínimo de solidariedade ou empatia por ninguém; em que o controlo das situações, por mais simples que sejam, escapa, de forma comprometedoramente problemática a quem tem por obrigação prever as consequências dos seus actos? Estamos aqui a fazer referência a esta nossa sociedade que, como facilmente se depreende inclui também a classe política que (não) temos e que continua a hipotecar o futuro do futuro dos portugueses, tais são as perspectivas que se nos apresentam, se tivermos em linha de conta, quer a repetição exaustiva das mesmas asneiras de sempre, pelos protagonistas de quase sempre. Não há pachorra!

Tão burrinhos que nós somos, para continuarmos mansamente a admitir ser tratados da maneira que temos sido tratados até hoje, sem um mínimo de indignação ou revolta! Não é por acaso que têm acontecido episódios como aqueles que as televisões e as rádios têm noticiado e que são de deixar qualquer cristão de cabelos em pé. A miséria material arrasta a miséria moral e, nesta desconforme conformidade, cada vez mais, se conjugam os múltiplos factores que têm determinado os espancamentos a crianças (alguns dos quais até à morte), os assassinatos, os roubos, o tráfico descarado e desenfreado de drogas violentas, as perseguições às autoridades, enfim, este Texas lusitano de contornos assustadoramente problemáticos e difíceis de contrariar.

Tão burrinhos que nós somos, para não percebermos que a burocracia está a aumentar, qual bola de neve enganadora, nomeadamente no que diz respeito às voltas que o cidadão tem que dar quando adquire casa própria e requer isenção do imposto municipal sobre imóveis. Já agora refira-se que a isenção, para os contemplados, baixou de dez para seis anos, ainda que as prestações, que nos levam couro e cabelo, tenham aumentado grandemente, não só em número de anos, mas também em volume de euros, podendo mesmo ser pagas ao longo de trinta, quarenta ou até, imagine-se, cinquenta anos. Inaudito!!! É a vida inteira de um cidadão a trabalhar para os fabulosos lucros da banca nacional e mista.

... Que a burocracia e a perda de tempo irão atingir proporções desesperantes, quando, como diz o Sr. Ministro, “for o Fisco a tratar de tudo”, como se tal fosse possível. Então e as declarações das despesas de saúde, de educação, de seguros, de aquisição de tecto dos cidadãos, sempre varáveis de ano para ano?! Expliquem isso às pessoas, para que elas entendam! Irá ser o regresso em massa das bichas nas morosas repartições de Finanças?! O Portugal “Internet” é um país minoritário, excelência!

E hoje ficaremos por aqui. Agora, que anda tudo desorientado, lá isso anda. Reparem só no comportamento de todos quantos se pronunciaram a respeito das manifestações ocorridas no mundo muçulmano e noutros locais do globo que não aí? Nós, para não errarmos, nada diremos sobre o assunto. Deixaremos apenas ao leitor, para motivo de reflexão, uma pequena questão: Que dizer de uma sociedade, que tem como característica fundamental, o culto da morte?!

20 de Fevereiro de 2006

Bragança dos Santos

Friday, March 17, 2006

Fogo

Que dizer do assombroso fogo
que trago incandescente na semântica?
Como se o sol de cada instante
projectasse no mapa da tua pele
um mar de geladas labaredas
Como se o sal de cada lágrima
mais não fosse que um sémen de penumbra
Que dizer do assombroso fogo
que trago incandescente no teu corpo?

Bragança dos Santos in "O Rumo e o Sonho"
Porto, 2001 - Fólio Edições
Distribuição Bertrand

Alquimia

Tens nos passos a graça de quem dança
No corpo, de mil fontes, a frescura
Nos olhos o brilho de água pura
No peito um coração de criança.

Tens de mim a devoção que não cansa
Culto de quem por ti sente loucura
Rito de quem de ti anda à procura
Nos distantes meandros da lembrança.

Destroçado respigo na memória
Impressões da tua nobre figura
Fugazes sensações de alquimista,

E vejo o sol doirado da vitória
Beijar-me do teu ventre com doçura
Como quem quer que eu nunca desista.

Bragança dos Santos in "Lágrimas"
Porto, 1997 - Edições Aura

Thursday, January 12, 2006

SE AO MENOS...



Se ao menos me deixasses
o perfume que em ti era
aurora e brisa e pássaro
aquele que vestia a fragrância de asas
e sopros de luz em cada gesto
como se tocar-te fosse definir
o aroma que a madrugada exala
depois de cada chuva consentida...
Se ao menos me deixasses
respirar a teia de luar
que aflora a janela verde da saudade
e me desses a provar a amora rubra do sonho
poderia adormecer no sopé do tempo
rente ao cheiro do teu corpo.



Bragança dos Santos, in “SILÊNCIOS E SENTIDOS”
Porto, 1998 - Edições Aura

Tuesday, January 10, 2006

E por que não?!

Como facilmente constatam, acabo de chegar, embora me encontre já no último nível... Bem, com o avanço das novas tecnologias nunca sabemos se o nível em que nos encontramos é o último, realmente, ou, se será apenas o primeiro de muitos outros que provavelmente se avizinharão. Importante mesmo é que a humaninade se tente "nivelar", através da interacção viável, positiva e sempre profícua de todos os povos, independentemente dos vários níveis culturais, na busca incansável da harmonização de tendências e práticas, na linha da pacificação da irmandade universal.